As mulheres da Comuna de Paris

143 anos da Comuna de Paris

As mulheres da Comuna de Paris

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“Certo observador burguês da Comuna escrevia em maio de 1871 em um jornal inglês: “Se a nação francesa fosse formada somente por mulheres, que nação terrível seria!” Mulheres e crianças de até treze anos lutaram nos dias da Comuna ao lado dos homens. E não poderá suceder de outro modo nas futuras batalhas pela derrubada da burguesia. As mulheres proletárias não contemplarão passivamente como a burguesia bem armada metralha os operários mal armados ou desarmados. Tomarão as armas, como em 1871 e, das atuais nações de agora – ou melhor dizendo, do atual movimento operário, desorganizado mais pelos oportunistas que pelos governos — surgirá indubitavelmente, cedo ou tarde, mas de um modo absolutamente indubitável, a união internacional das “terríveis nações” do proletariado revolucionário”.

(Lenin, O programa militar da revolução proletária, 1916).

Hoje, dia 18 de março de 2014, celebramos um dos episódios mais brilhantes que a humanidade já produziu: os 143 anos da insurreição popular que culminou na experiência da Comuna de Paris, a primeira república operária da história. Fundada em 1871 na França, a Comuna de Paris adotou uma política de caráter socialista, baseada nos princípios da Primeira Internacional Comunista.

Como a Comuna não podia utilizar o velho aparelho estatal burguês da França, esse aparelho tinha sido adaptado e educado para a opressão das massas trabalhadoras, substituiu-se então o velho aparelho de Estado por um próprio, de tipo inteiramente novo. Neste novo Estado o órgão supremo era o Conselho da Comuna, eleito mediante o voto universal. Nele todo membro da Comuna cuja atuação não justificasse a confiança depositada nele por seus eleitores, podia ser destituído em qualquer momento por estes.

 Em semanas, a recém nomeada Comuna de Paris introduziu mais reformas do que todos os governos nos dois séculos anteriores combinados. A jornada de trabalho foi reduzida, e chegou-se a propor a jornada de oito horas, os funcionários estatais recebiam o salário médio de um operário, a velha polícia foi liquidada e os operários em armas encarregaram-se de manter a ordem, as residências vazias foram desapropriadas e ocupadas, instituiu-se a igualdade entre os sexos, projetou-se a autogestão das fábricas, o monopólio da lei pelos advogados, o juramento judicial e os honorários foram abolidos, o Estado e a Igreja foram separados, a educação se tornou gratuita, secular, e compulsória, escolas noturnas foram criadas e todas as escolas passaram a ser de sexo misto. A Bandeira Vermelha foi adotada como símbolo da Unidade Federal da Humanidade, o internacionalismo foi posto em prática: o fato de ser estrangeiro se tornou irrelevante. Os integrantes da Comuna incluíam belgas, italianos, poloneses, húngaros, etc. Os artistas passaram a autogestionar os teatros e editoras e o salário dos professores foi duplicado.

A Comuna realizava seu trabalho apoiando-se nos operários, nas organizações sindicais e nos clubes revolucionários. A atuação da Comuna é um testemunho de que ela constituiu  um novo tipo de Estado: um Estado proletário. Esta heroica batalha do proletariado francês incentivou a classe no mundo inteiro a ousar assaltar os céus. A Comuna de Paris foi o grande motim desencadeado pelo proletariado como ensaio geral da revolução proletária mundial para a derrocada da ordem burguesa.

“Em suas grandiosas batalhas contra a burguesia, o proletariado mundial conhecera a experiência imorredoura da Comuna de Paris, uma forma de Estado que, pela primeira vez na História, permitiu a participação direta e decisiva das massas no poder. Unia as funções legislativas às executivas e tornava acessível, aos trabalhadores mais simples, a direção do Estado. Como resultado da experiência da Comuna de Paris, a doutrina do proletariado foi enriquecida com a lição de que a máquina do Estado deve ser destruída, com todos os seus apêndices, e, em seu lugar, erigida uma nova, a serviço da ditadura proletária. E veio para primeiro plano a questão teórica de que não basta somente tomar o poder, mas trata-se sobretudo de mantê-lo e consolidá-lo.”

(Extraído de Grandes êxitos da Revolução Cultural, documento redigido por Pedro Pomar, publicado em A Classe Operária, órgão central do Partido Comunista do Brasil, 1968.).

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Neste, como em todos os feitos da humanidade, as mulheres tiveram um papel destacado na luta pela construção de uma nova sociedade. Sua participação na história muitas vezes encoberta, ocultada ou subestimada foi tão importante na Comuna de Paris que se tornou impossível não falar nela. Neste 18 de março damos Viva a todos os heróis communards que audaciosamente se levantaram contra a burguesia, especialmente as mulheres da Comuna de Paris, a quem muito devemos!

Destas mulheres, várias se tornaram famosas como Louise Michel, Nathalie Lemel ou Elisabeth Dmitrieff mas milhares permanecem desconhecidas. A maioria delas eram trabalhadores e todas eram de valor admirável, zelo e abnegação.

Em 18 de março, no primeiro dia da Comuna, foram elas que aclamavam para a insurreição. Louise Michel e muitas parisienses preveniram tropas enviadas pelo governo para recuperar os canhões de Montmartre e convencer os soldados a confraternizar com os insurgentes, colocando bitucas no ar.

Em 9 de abril de 1871, sob o impulso de uma operária, Nathalie Lemel, e uma professora aristocrata russa, Elizabeth Dmitrieff, trabalharam pela organização “União das Mulheres para a defesa de Paris e para cuidar dos feridos”, a primeira associação do sexo feminino organizado nasce.

O Comitê Central da União de Mulheres, que inclui, além destas duas ativistas, a costureira Marceline Leloup, a lavadeira Branca Lefèvre, a costureira Aline Jacquier, a sapateira Therese Collin e a encadernadora Aglaé Jarry, publica, manifesta e organiza reuniões públicas nos distritos e bairros da capital. Em 12 de abril, a primeira chamada para as mulheres é rebocada nas paredes de Paris e dizia, em resumo:

Nossos inimigos são os privilegiados da ordem social atual, todos aqueles que sempre viveram de nossos suores, que são engordados por nossa miséria… o momento decisivo chegou. Isso deve ser feito no velho mundo! Nós queremos ser livres!…”.

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O comitê opera fornos e ambulâncias, recebe doações em dinheiro ou em espécie, para os feridos, viúvas e órfãos. Enquanto prosseguem as ações de ajuda mútua e de solidariedade, ele não esquece o trabalho de advocacia, educação e de combate, registrando os cidadãos que querem juntar-se na defesa de Paris.

A União de Mulheres, organização séria e responsável, estabelece um programa revolucionário. Ela reivindica a igualdade de remuneração, as oficinas de gerência da organização, escolas profissionais e orfanatos seculares, aulas à noite para adultos, creches e assistência a mães solteiras, para que não se enquadrem na prostituição. Ela reconhece o direito comum e uma pensão é paga às viúvas de guardas nacionais mortos em confrontos, casados ​​ou não, e seus filhos legítimos ou ilegítimos. Ela obtém o fechamento de “bordéis” e a supressão da prostituição considerada como “uma forma de exploração comercial dos seres humanos por outros seres humanos.“, conquista o direito ao voto para as mulheres e os estrangeiros bem como o princípio da separação entre Igreja e Estado em escolas, hospitais, prisões.

Os ideais que alimentam essas mulheres são os da revolução social e do socialismo real, e não o socialismo mascarado existente em muitos países capitalistas de hoje. Essas mulheres aplaudiram a “República Universal”, “a abolição de todos os privilégios de todas as fazendas”, “substituição da regra do capital de giro” e recordaram que “qualquer desigualdade e qualquer antagonismo entre os sexos, é uma base de poder das classes dominantes”.

Se as mulheres da Comuna são inovadoras, as organizadoras, elas são também reais combatentes.

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Algumas, como a cozinheira e a enfermeira, enfrentam o perigo e a morte, outras armadas com armas de fogo disparam contra os atacantes até o último dia, elas lutavam enquanto ascendiam a coragem atormentada de seus companheiros.

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A repressão que se seguiu contra elas foi terrível. Quando foram pegas com as armas na mão, elas foram fuziladas no campo de batalha. Presas, aguardavam o julgamento no acampamento sinistro Satory sob as vaias, insultos, golpes da estúpida multidão burguesa de Versalhes. Como Louise Michel, elas enfrentaram os seus juízes, com muita coragem e dignidade, e reivindicaram suas ações além de condenadas à deportação para Nova Caledônia. Elas viajavam mais de 120 dias em embarcações velhas em circunstâncias terríveis e enjaulados como animais. Louise Michel foi condenada à deportação para Nova Caledônia. Ela retornou a Paris após a anistia em 9 de novembro de 1880.

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Muito mais do que os “communards”, elas são caluniadas, humilhadas, destratadas, apelidadas de “pétroleuses”1 e violentadas pelos vencedores e jornalistas reacionárias, demonstrando o importante papel que ocupavam durante a epopéia revolucionária que durou 72 dias e o terror que inspirou aos ricos. Nos últimos anos elas continuam a se rebelar e defender constantemente com energia e orgulho os direitos de presos políticos.

Devido a incrível bravura e enorme dedicação de uma jovem paramédica, conhecida apenas por Louise, assassinada pela tropa inimiga ao ajudar os feridos, sendo encontrada no domingo 28 de maio na barricada final da Rue Fontaine-au- Roi, Jean-Baptiste Clément, lhe dedica sua famosa canção Le Temps des Cerises, prestando homenagem às mulheres heróicas da Comuna de Paris, as trabalhadoras mais simples que pagaram mais caro por sua luta pela libertação de toda a classe.

A atitude das mulheres durante a Comuna foi admirada por todos estrangeiros e exasperada a ferocidade de Versailles” conta Lissagaray em sua História da Comuna de 1871. Jean-Baptiste Clément escreve uma canção dedicada a uma mulher chamada Louise, uma mulher que havia juntamente com ele defendido as barricadas da Rue des Trois-bornes, do qual ele havia guardado apenas o primeiro nome, essa canção ilustra perfeitamente esse ponto de vista sobre a força e garra dessas mulheres.”

À Louise:

_ J’aimerais toujours (Eu amarei sempre)
Le temps des cerises (O tempo das cerejas)
C’est de ce temps là (É este tempo)
que je garde au coeur (Que guardo no coração)
Une plaie ouverte (Uma ferida aberta)

Et dame fortune (E uma senhora fortuna)
en m’étant offerte (Oferecida pra mim)
Ne pourra jamais (Não poderá jamais)
calmer ma douleur (Acalmar a minha dor)

“Le temps des cerises”, Jean-Baptiste Clément

Link para ouvir a canção :

http://www.youtube.com/watch?v=U_W0B6aUt3E

1: Pétroleuses: é o termo que descreve uma mulher acusada de usar óleo para acender fogueiras, em 1871, durante o esmagamento da Comuna de Paris pelo guardas de Versailles. Termo usado especialmente após o incêndio no Hôtel de Ville Paris (24 de maio de 1871), onde as mulheres tinham tomado parte na luta armada, esse fato se deu durante a Semana Sangrenta.

Texto baseado na tradução de: http://unpoissonchat.canalblog.com

Referências bibliográficas: http://www.anovademocracia.com.br/no-106/4602-datas-memoraveis-do-proletariado285

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